UMA IRRESITÍVEL VOCAÇÃO PARA A ALEGRIA
Como bom mineiro , sou carioca; como bom carioca, sou mineiro.
De qualquer maneira que o diga, tenho absoluta isenção para ser um fanático pelo Rio de
Janeiro, se o fanatismo pudesse ser isento. Aliás ,não se conhece quem ame mais ou menos
o Rio. Pode até não gostar; mas , se gostar , adora, sem meio termo.
A maioria dos forasteiros nem demorou a se apaixonar, foi amor à primeira vista. Desde
pequena a cidade se acostumou aos elogios. Ela ainda uma criança quando um dos seus
amantes, o todo poderoso o Primeiro Governador Geral Tomé de Souza, escreveu: “Tudo
é graça o que dela se pode dizer” . E, tantos e tanto cantaram sua formosura que ela terminou
por se tornar vaidosa e narcisista, reforçando sua auto estima com os olhos alheios que aos
poucos fo i incorporando a sua natureza.A cidade maravilhosa cheia de encantos mil é o que é,
mas, também parece que em prosa e verso , através do olhar da sedução e da linguagem da
paixão.
Por fervor de seus amantes e por merecimento próprio , ela , não importa que o nome seja
masculino : à cidade se atribuem virtudes e vícios femininos, foi criada para ser musa.
Sempre exibindo com raro despudor suas formas e cores, tentou a todos os que carregavam
um cavalete , ou um tripé, uma máquina ou uma câmera.
Vinicius de Moraes dizia que ser carioca é um estado de espírito. Talvez seja mais,
pois não se trata apenas de alma, mas de corpo e alma. Ama-se essa cidade com todos os
sentidos. O primeiro alumbramento é o evidente visual. E depois é sobretudo tátil, coisa de
pele.
Segundo Tom Jobim, que deu som a tudo isso, herdamos dos nossos antepassados tamoios
o gosto pela água, pelo mato, pela música e pela dança. Sentar-se numa cadeira de praia e
observar o ritual dos novos tamoios é por si só um divertido programa, barato e democrá-
tico.Mas existem outros. Enquanto Salvador é histórica(até o H da Bahia é do passado),
o Rio é mais geográfico. O que tem mais bonito não foi criado pelo homem.
É significativo que uma cidade que gosta de misturar o sagrado e o profano tenha como
Protetor o Cristo de braços abertos e como padroeiro São Sebastião crivado de flechas.
Os dois compõem um discurso visual que expressa dois estados comuns ao carioca:
a generosidade proposta por um e a serenidade demonstrada pelo outro diante da
adversidade . Eles tem de fato tudo a ver com essa terra, ao mesmo tempo alegre e
sofrida.
Às vezes paraíso , às vezes inferno, mais provavelmente “purgatório de beleza e do
caos”, conforme cantou Fernanda Abreu, o Rio vive recorrendo a esses dois fortes
protetores. Sem hipocrisia , expõe suas belezas com a mesma franqueza com que deixa
ver suas chagas , disfarçando a dor e não dramatizando o sofrimento. Como sabem todos os
seus cronistas de ontem e de hoje, o Rio tem a alegria como sua irresistível vocação .
Zuenir Ventura
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